Martim Parte I – O Fascínio

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PARTE I – O fascínio

         Estava um dia chuvoso, o que era raro naquela época do ano, e os pingos da chuva no vidro do seu carro faziam belas e rápidas sinuosidades, difusamente misturadas, de profusão atenuada. Os pingos, vistos de dentro, apresentavam uma tonalidade leitosa, de aspecto vaporizado, ondulante. Ele, ao mesmo tempo, em que se distraía com as curvaturas levemente vaporizadas que deslizavam pelo vidro da frente, pensava e quando pensava, falava com empostação de voz, como se estivesse sendo observado por várias pessoas num exercício de leitura.

         O que “lia”, dessa vez, era uma música do Chico, cantada por Maria Bethânia. A voz de Bethânia também “cantava-lendo” e numa musicalidade pungente, arrebatadora. A voz dela, evidentemente, era bem melhor que a de Martim, mas mesmo assim, o moço resolvera se aventurar e, sustentado por uma humildade-presunçosa, conseguia um resultado menos melodioso, porém, tão delicadamente-preciso que prenderia a atenção de quem quer que fosse.

         Martim era um especialista nisso, podia jurar que nascera sabendo fazer belas e eficientes “narrações”. E aquela “atividade” se constituía – sempre – numa diversão, que caberia usar na profissão que antes mesmo de abraçar, abandonara. Ele concebia o curso de jornalismo, que trocara pelo de psicologia, como uma espécie de “recreação cultural”, em que o futuro profissional deveria dedicar-se, prioritariamente, à aquisição de conhecimentos – vastos e variados – para comunicar profissionalmente: com isenção e beleza. 

         O narrador-nato vivia para aprender, e aprender de forma lúdica, sem grandes ambições. Martim sentia, por exemplo, que poderia passar quinhentos anos viajando, indo de um lugar para outro, experimentando costumes diversos, despido de pertencimento. E não queria desvendar o que quer que fosse, ah, para quê? Ele, humildemente, se atribuiria a missão de reconhecer o conhecido, desvelando o já-apresentado: eis o que o futuro-psicólogo poderia fazer vidas seguidas, repetidamente, indefinidamente.

         A chuva apertara e precisou interromper a brincadeira para se concentrar; a Clínica-escola estava próxima, mas deveria tomar cuidado porque tudo ficava mais difícil, no trânsito, com uma chuva teimosa, constante, fora de época. Martim desligou o som do carro, segurou o volante com firmeza, dobrou esquinas e conseguiu estacionar bem próximo do lugar de costume. Ainda faltava meia hora para o início da supervisão e resolvera então, ficar no carro, em silêncio, observando a chuva cair; fechou os olhos e, com o auxílio do barulho dos pingos no teto, lembrou-se de uma de suas viagens à Europa, mais precisamente quando visitara a Grécia, há oito anos.

O moço, como era de praxe, estava só, caminhando tranqüilo, à tarde, por uma rua de Atenas, quando desabou uma chuva repentina e forte. Todos correram, Martim conseguiu se abrigar num pequeno café e ficou a olhar as ruas apertadas, repletas de gente correndo, assustadamente-divertidas, rindo enquanto empurravam uns aos outros. O cheiro do café, o barulho da chuva lá fora e as feições diversificadas de pessoas de todas as partes do mundo que dispersavam agitadas, criaram uma atmosfera inebriante, um tanto exótica ele diria, que o alegrou fazendo com que imaginasse que poderia passar muitos anos trabalhando como garçom. Nas ilhas gregas, certamente.

O quase-jornalista, quando sentia vontade de ficar muito tempo em alguma coisa ou lugar, parava para pensar em si mesmo, porque aquilo não se dava com freqüência. Ele chegou a cogitar não voltar para o Brasil, até procurou emprego em jornal, mas desistiu de seus planos porque a doença do avô se agravara fazendo com que retornasse para Campinas. Naquela tarde, num aconchegante café, na Grécia, percebeu que poderia viver sem raízes, mudando de tempos em tempos; começando de novo, de certa forma. Era assim que desejava viver, concluiu, pedindo um capuccino e deixando que a tarde caísse, molhada.

–         A namorada e o avô

A importante conclusão de Atenas fora atenuada pela morte do avô materno de Martim: o quase-jornalista sofrera muito, chorara como criança, encarara demoradamente a morte não entendendo bem o que vira. Depois de tudo decidiu que ficaria por aqui, trocou de curso, vendeu o apartamento que lhe coube na herança, comprou um menor, de dois quartos, e montou uma escola de inglês. O sustento, ele tirava da escola, na qual era também professor e assim passava seus dias: estudando, trabalhando, namorando e planejando – meticulosamente – a próxima viagem.

O narrador-nato abriu os olhos, suspirou de saudade do avô, consultou o relógio, e notou que estava em cima da hora. A chuva persistia, ele pegou o material, abriu um enorme guarda-chuva e saiu do carro. Ao se aproximar da Clínica ouviu uma voz familiar, olhou em volta e identificou sua namorada que lhe fazia sinal mais adiante, pedindo-lhe que fosse buscá-la no carro enquanto mandava beijos. O moço sorriu e apressou o passo: “onde está seu guarda-chuva?” Perguntou assim que se aproximou: “deixei com a minha mãe, sabia que estaria aqui para me salvar” e riu alegremente, enquanto o abraçava.

Eles moravam juntos há três anos e a iniciativa foi de Martim, que mal acreditava no que fizera. O convite partiu dele e dele veio toda a insistência; e o dia-a-dia não era tão ruim assim, concluía, pois, a amava, a admirava e apreciava – consideravelmente – sua alegria. Os dois viviam como casados, desenvolvendo suas atividades e compartilhando um cotidiano de simplicidade e pequenos ajustes. Martim a conhecera na faculdade, e foi uma delícia seguir o curso em parceria; isso o estimulava, ajudando-o a deitar raízes.

 “Não estamos atrasados, estamos?” Perguntara Taís que, tal como o namorado, cultivava a pontualidade. “Em cima da hora, não se preocupe”. Ele falava enquanto apertava sua cintura; “senti sua falta”; “foram somente dois dias, seu bobo, hoje estarei de volta”. “Espero que sim, não gosto de dormir sozinho, honey, you know that”. “Prometo, essa história não se estenderá mais do que combinamos”, ela sentenciou: “a audiência com o juiz está marcada e minha mãe menos ansiosa; cumpri, por enquanto, minha função de filha”.

Os dois atravessaram, finalmente, os portões da Clínica, juntaram-se aos demais, e dirigiram-se para o mesmo grupo de supervisão. O aluno, sempre que chegava ao belo sobrado, sentia orgulho do que conseguira conquistar: havia na Clínica-escola uma atmosfera de aprendizado sustentada pela amizade e pelo amor. O que jamais existira no curso de jornalismo, comparava-lamentando: em que a competitividade era evidente, se constituindo numa mola propulsora para intenções e atitudes. Martim aprendera a ser competitivo, mas não apreciava o roteiro, considerava-o ultrapassado, extenuante, insensato.

         Ele considerava um desperdício passar anos a fio competindo para mostrar eficiência no que se propunha a fazer. Haveria um modo mais prazeroso de exercer uma profissão, algo mais individualizado, que dependesse mais das condições “solitárias” da pessoa do que do resultado que pudesse proporcionar. Esse foi um dos motivos que o fez trocar o jornalismo pela psicologia, motivo que não confessara, mas que sabia forte o suficiente para motivá-lo a considerar a desistência.

         Em relação à psicologia, até o quarto ano do curso, também duvidou de sua escolha: e quanto mais se aproximava do final mais cogitava o abandono. O que o plantonista não esperava é que pudesse se sentir tão envolvido com a prática clínica, com a experiência do atendimento, com as pessoas que recebia e “via” se transformarem em seus pacientes. Aquilo era uma novidade e tanto, e o namorado-da-Taís se sentia tão responsável que temia fazer uma grande bobagem.

         E foi então com receio-de-principiante-cuidadoso que iniciou os atendimentos e ouviu histórias tão diferentes da sua, tão comoventes às vezes, sempre tão desconcertantes. “Naqueles colóquios”, o moço começou a desconfiar que havia encontrado o que faria pelo resto da vida. E – constatava radiante – no prenúncio de cada gesto ou frase, que o compromisso com a “verdade” e falta da mesmice era o que mais o atraía na atividade clínica. A “verdade” seria construída na parceria e, no final das contas, se constituía num sentido compartilhado, artificialmente atribuído, porém não menos verdadeiro, o que era fascinante.

         A falta da mesmice era espetacular porque cada história jamais se repetia, jamais se igualava a outra. Como podia ser? O aluno ouvia extasiado cada episódio da vida das pessoas, cada conflito anunciado, cada compreensão oferecida pelo supervisor e… E havia surpresa sempre, e existiria sempre algo a considerar, e uma sutileza semi-invisível poderia se transformar numa pista eficaz de desvelamento de significados.  Eram esses os mundos – singulares e vastos – que o quase-jornalista poderia vasculhar permanecendo estático, cultivando a permanência e esbarrando – inadvertidamente – na felicidade.


–         Os internos

Ao escolher o Plantão como área de estágio, o namorado-da-Taís estava dando a última cartada em relação ao seu comprometimento com a psicologia, e parecia satisfeito com o rumo das coisas, pois o semestre já ia a prumo e todas as suas suspeitas se confirmavam: atender conduzia a um raro prazer.

E justo debaixo de toda a chuvarada fora de hora, naquele dia, haveria uma novidade ainda maior porque a Clínica receberia três internos da Fundação Casa para o atendimento em Plantão. O clima estava tenso, pois, todos sabiam da seriedade do acontecimento e Martim compôs o seleto grupo de alunos que se ofereceu para atender os adolescentes transgressores.

O dia de Plantão era, para o quase-jornalista, garantia de emoções fortes: o encontro com o inesperado, o contato com a diversidade e a gravidade das situações apresentadas deixavam Martim e todos os plantonistas excitados, também gerava ansiedade produzindo um “quantum” de cautela redobrada. É que em princípio, “tudo poderia acontecer” e o aluno tinha a responsabilidade de acolher os pacientes de forma empática e – ainda – de operacionalizar intervenções com o objetivo de amenizar o sofrimento singularmente instituído.

E em meio a tanta excitação, o professor-de-inglês considerou, posteriormente, que a chegada dos meninos fora cinematográfica: a Clínica fervilhava de pacientes e alunos, quando uma van topic atravessou os portões e estacionou no pátio, do lado esquerdo. Dela desceram a psicóloga responsável pelos internos, vários agentes de segurança (ostensivamente armados) e três adolescentes; o motorista permaneceu na van, estrategicamente atento.

Os adolescentes atravessaram algemados a sala de espera lotada e, conduzidos pelos agentes, entraram na sala dos professores e aguardaram. Um dos internos estava com problemas no joelho e andava-saltando feito um saci-pererê, o que chamou mais a atenção; os outros dois estavam algemados na mesma algema: o braço direito de um no braço esquerdo do outro, o que gerava um descompasso harmônico, de susto retido, um tanto engraçado.

O supervisor do Plantão tentava administrar a situação falando com um, falando com outro, indo de lá para cá. Os agentes de segurança – rapidamente – verificaram a salas que foram destinadas ao atendimento porque não deveriam apresentar facilidades para uma possível tentativa de fuga. E o que aconteceu, nesse instante, foi que a chuva caiu torrencialmente produzindo um barulho cadenciado, melodiosamente-incômodo, unificador. As pessoas, automaticamente, se aproximaram umas das outras.

Martim, extasiado, não acreditava no que via: era como se todos na Clínica respirassem em conjunto, no mesmo ritmo. Ele observava, a meia distância os meninos, que pareciam meninos mesmo: de pequena estatura, de aspecto frágil, permanecendo de cabeça baixa e chamando as pessoas de “senhor” e “senhora”. Os três usavam uniformes de cor escura e se intimidavam com os olhares direcionados a eles.

“Assassinos, meu Deus, são assassinos!” Pensou Martim enquanto observava os garotos algemados, um tanto acuados, aparentando desconforto. O quase-psicólogo não sabia se reparava nas pessoas da Clínica ou se olhava para os futuros pacientes, é que eles exerciam certo fascínio. O plantonista constatou que não se conseguia tirar os olhos deles com facilidade e sentiu que acontecia o mesmo com seus colegas: as algemas, o uniforme, a condição de prisioneiros e de ameaça letal – a todos e qualquer um – transformava aquele instante em algo sui-generis.

Taís se aproximou discretamente e segurou a mão do namorado; o moço abraçou-a enquanto mantinha os olhos no menino que pulava feito um saci. Logo logo estaria tão próximo de um deles que não sabia o que perguntar, por onde começar? A sua sorte é que o supervisor determinou que atendessem em dupla e sua parceira era uma amiga, com quem não somente sentia-se à vontade como também confiava em sua capacidade investigativa.

Os agentes, por fim, liberaram as salas; o supervisor chamou os alunos que atenderiam os internos, apresentou-os, pedindo-lhes que se dirigissem aos respectivos consultórios. O aprendiz sentiu um aperto na boca do estômago, atenderia o menino que saltava. Vitória, com segurança, tomou a iniciativa e solicitou que a acompanhassem: o interno, prontamente, seguiu-a e, quase grudado nele, um agente de segurança; Martim vinha atrás.

A chuva caiu mais forte, se é que era possível, e o barulho ensurdecia. Martim, agora, estava na mira de todos os olhares e a sensação era terrível, pois havia um ponto concentrado para o qual todos olhavam e ele compunha esse ponto. Aqueles instantes foram indescritíveis. Tentou, posteriormente, “narrar” o que sentira, mas desistiu: “incomunicável”, concluía.

Caminhou, como numa embriaguês, por entre olhares de repugnância e temor; sentia, nos colegas, o medo pulsando e a revolta administrada, contida. Via que o medo de alguns compunha apenas uma auto-defesa, tinha certa racionalidade, em outros porém, percebia um medo cego, duro, letal. Aliado ao medo, via-se o desprezo gerando repulsa, que era o resultado de uma desaprovação categórica, sem atenuantes. Nesse momento, o estagiário abaixou a cabeça e comportou-se como seu futuro paciente: diante de si, havia o chão e a iniciativa-inerte de seguir a determinação alheia.

Esta “cena”, que acontecia em slow-motion, durou tempo demais e o quase-jornalista não conseguia imprimir modificação em seu ritmo, sentindo-se impotente. Ele também conseguia identificar, entre os presentes, um sentimento de solidariedade, bastante tênue, uma quase-compaixão, que rodeava o medo e o desprezo, mas não os tocava. A solidariedade timidamente-minúscula não alterava o bloco de medo transformado em ódio iminente, capaz de adquirir vida e reger os acontecimentos, capaz de massacrar fatos e intenções, indistintamente.

Martim, pesado da densidade de concreto dos afetos negativos, num esforço sobre-humano, levantou a cabeça e viu o interno que pulava, quase cair: ele permanecia algemado. As pessoas recuaram, o agente de segurança, num movimento rápido o apoiou e o comboio seguiu adiante. O futuro-psicólogo, que agora revidava os olhares alheios, resolveu contar os passos e cada unidade parecia formar seqüências inteiras de horas elásticas, intermináveis.

A câmera em slow-motion captava as seqüências de imagens e foi a primeira vez em que preferiu as imagens às palavras. Ele podia ver-sentindo o seu pé direito avançar lentamente, enquanto a respiração alheia se misturava com os olhares de todos e com o som acelerado do seu coração. Do mesmo modo que podia ver-sentindo o medo de Taís unir-se à reprovação de algum paciente que aguardava na sala de espera e unir-se – ainda – ao movimento do cabelo de alguém que esticava o pescoço para não perder detalhes da cena em andamento.

Martim poderia compor inúmeras dessas parcerias, mas o assustador é que conviviam – perfeitamente – gerando o chuvoso instante e o moço tinha plena consciência delas. De todas, esmiuçadamente.

O plantonista deu mais onze passos e, por fim, chegaram ao local onde ficaria a sós com o interno e com Vitória. As algemas foram retiradas e os três entraram enquanto o agente ficava de prontidão, em pé, do lado de fora, para preservar a segurança das pessoas que se encontravam na Clínica e aguardavam – receosas – o desenrolar dos acontecimentos.

–         O contato

O nome dele era André, tinha dezesseis anos e estava preso por assassinato: matara um taxista, de madrugada, numa crise de abstinência, quando tentava conseguir dinheiro para comprar cocaína. Martim acompanhara o caso, que foi comentário na cidade por semanas seguidas: gerou comoção, protestos, debates acalorados sobre políticas públicas, pena de morte, educação etc e etc. E na misteriosa manhã chuvosa, apenas um metro o afastava do autor do crime, poderia tocá-lo se quisesse e passaria a conhecer um pouco de sua vida.

O fascínio permanecia, o aprendiz não sabia explicar, mas continuava capturado por alguma coisa. E não era pelo André propriamente, não gostou nem desgostou dele: constituía-se numa figura curiosa, com história trágica, oriundo de uma classe pobre, mas com pinceladas de classe média. Isso o aproximava de Martim, pois até freqüentaram os mesmos lugares.

Vitória continuava conduzindo a situação, o que dava ao professor-de-inglês a chance de observar e pensar livremente; por um instante, mexeu os lábios para perguntar, mas sentiu que faria uma “narração”, parando antes que o primeiro som pudesse emergir. Ele não sabia qual o tom que deveria emprestar às palavras, tinha receio de parecer falso.

O adolescente transgressor, desde o primeiro instante, não apresentou dificuldade para falar, o que gerava alívio; e não sabia exatamente porque estava ali, mas falou sobre sua vida de interno e sobre uma possível avaliação do juiz que poderia culminar em liberdade assistida. Martim sentiu que estava sendo apresentado a outro mundo; o que aquele menino falava não compunha sua vida, seus valores, suas relações, seus interesses. De vez em quando, olhava para sua amiga e tentava adivinhar o que estaria sentindo. Vitória comportava-se bem, ele concluía, suas atitudes demonstravam naturalidade e sua voz não havia se alterado, permanecendo clara, com aquela tonalidade suave, que despertava em quem a ouvia uma simpatia gratuita, afável.

A certa altura, Martim fez perguntas, teceu considerações e até que não se saiu mal como temia. André que, ao entrar na sala, erguera a cabeça, soltava-se na medida em que percebia que apenas conversariam. O interno, de vez em quando, observava as roupas dos estagiários, de vez em quando, fixava a janela com grades, e dirigia mais a atenção para Vitória do que para Martim. “Por que será que ele olha tanto para ela?” E nas suas conjecturas, pensou: “eu, em seu lugar, e nessas condições, também acharia bem mais estranho uma mulher conversando comigo do que um homem; deve ser isso”.

         O plantonista gradativamente ficou à vontade, o que não diminuiu o fascínio inicial; alguma coisa separada da situação concreta o seduzia, talvez fosse uma curiosidade, talvez fosse a vontade de saber detalhes do crime, talvez fosse o desejo de conversar livremente com André. A artificialidade da interação terapêutica incomodava o aprendiz: quando ele sentia que podia reproduzi-la com competência e eficácia, ficava imaginando como seria se a alterasse, se burlasse as regras, se a transformasse noutra coisa.

Ah, seria delicioso, por exemplo, perguntar para o adolescente transgressor o que sentiu ao matar, que gosto teve. Se há, no gesto homicida, um triunfo sobre a vida – que conduz a um acesso de poder – ou se o que acontece é um arrependimento sem fim, impedindo qualquer comemoração.

         Enquanto o quase-jornalista divagava, Vitória anunciou o final do atendimento e Martim acompanhou-a, ela abriu a porta da sala e o agente entrou para colocar novamente as algemas no interno. Saíram em fila, encontraram-se com os outros e deu-se a despedida com os meninos sendo encaminhados para a van e rapidamente deixando a Clínica.

Martim, diferente dos demais estagiários, acompanhou a “operação saída” até o final: ficou ao lado da van despedindo-se de todos com acenos de mão e somente entrou quando não os avistou mais. Esse gesto – surpreendente – foi repetido nos encontros que se seguiram e ganhou a adesão dos colegas que atendiam os “garotos” da Fundação Casa.

         O restante da manhã foi interessante, mas menos sedutor que o contato com André. O supervisor do Plantão e a Coordenadora da Clínica reuniram seus grupos de supervisão para que os atendimentos fossem discutidos em conjunto. Falou-se muito sobre as especificidades da situação: Martim e Vitória relataram a sessão, as outras duplas fizeram o mesmo e a discussão foi “catártica”, desafiadora, até cansativa, na opinião do quase-jornalista.

Ele gostava de discutir, mas sentia que chegava uma hora que não precisava mais, que insistir seria perda de tempo e, geralmente, insistiam: é que havia uma “região” do aprendizado que era individualizada, desprovida de acesso para terceiros, e cada um deveria cuidar dela sozinho, em outras instâncias; quando atingia esse limite, o futuro-psicólogo, desligava-se não se importando mais com o que diziam.

–         O depois

Ao sair da Clínica, nenhum sinal de chuva existia, aliás, parecia que meses haviam se passado em relação à chuva repentina e traiçoeira. O moço parou, olhou o céu, olhou em volta e não acreditou. O sol forte varrera qualquer indício do temporal e o ar estava limpo, agradável, convidativo. “Que estranho”, pensou.

Ele precisava ir para a escola, tinha compromissos importantes naquele dia, no entanto, não conseguia se desligar do contato com André. O plantonista queria refletir, mais que isso: queria ter o direito de compartilhar do homicídio sem as amarras da ética e do bom senso. A leveza que o acompanhava desde os primórdios de sua modesta existência resolveu transformar-se em teimosia existencial, reivindicadora de direitos, carente de novos acessos. Da reunião importante, não teve como escapar, mas em relação às aulas, convocou outro professor e foi para casa; queria esconder-se na tranqüilidade do apartamento em que morava.

Ao chegar, acessou a internet para pesquisar sobre o assassinato. Encontrou toda a matéria e a imprimiu; fez café, pegou a reportagem, foi para a sacada e leu por diversas vezes. André, praticamente degolara o taxista, afirmavam alguns que por desespero, atestavam outros que por pura crueldade. Era inacreditável que aquele menino-saltador tivesse feito o que fizera, não parecia a mesma pessoa, não parecia. Por mais que houvesse o efeito de uma droga ou o efeito de sua ausência ainda assim era difícil de acreditar. De onde teria tirado força para tantas facadas? De onde teria tirado coragem para finalizar o que iniciara? E o sangue frio para escapar da cena do crime, de onde obtivera?

As horas foram passando e o aprendiz – hipnotizado – permaneceu alheio aos barulhos da cidade, às modificações da luminosidade que levavam a tarde e traziam – calmamente – uma bela noite, um tanto quente para o gosto de Martim, mas ainda assim agradável. Em sua indispensável sacada, horas a fio, o quase-psicólogo acompanhou André em sua pouco aceitável experiência de matar alguém e de ser apanhado, horas depois. O fascínio que sentira ao colocar os olhos naqueles meninos não cedera um milímetro e suspenso no ar, admirando o céu, podia cortejar devaneios.

– A seqüência do depois

Com a lentidão do passar das horas, porém, algo misterioso acontecera: as primeiras impressões cederam e para Martim – repentinamente – parecia que André cometera a “degola” no consagrado terreno do amadorismo: como um aventureiro desesperado que se arrisca sem garantias, agindo impulsivamente, na desconsideração.

O-namorado-da-Taís passou então a condenar, em pensamento, o amadorismo do interno que conhecera de manhã; ele, impulsivamente, quis “narrar” a condenação, que estava pronta em sua cabeça, mas desistiu. É que sentiu que não cabia o lúdico na situação, era para valer sua desaprovação e não compreendeu o que significava, mas também não quis aprofundar.

A desaprovação – aparentemente – dizia respeito à falta de planejamento e de sobriedade na execução, o amadorismo tirava a beleza da cena, do que a experiência poderia oferecer. Aquele transgressor, definitivamente, deixara-se arrastar pela impulsividade, fora conduzido – como um objeto qualquer – por um turbilhão que sequer conseguiria dimensionar. Ao rememorar a movimentação na Clínica na estranha manhã chuvosa, Martim mirou nos agentes de segurança e viu o contrário do amadorismo: talvez fosse aquilo que somado ao assassinato pudesse verter o que de melhor a “experiência” tivesse a oferecer.

O que o aprendiz capturou foi a virilidade profissional sem atenuantes, precisa, competente; depois, somou a ela a sensação de ter feito como o planejado e – ainda imaginou – o recebimento de um poder especial, aquele que vence poderosas forças instituintes. A conclusão veio aparentando neutralidade, envolta em trajes lógicos: a vitória sobre a vida, momentânea e circunstancial, conquistada na usurpação, deveria conter altas doses de poder insano, cru, e isso não combinava com amadorismo.

 O celular tocou, Martim sabia que era Taís; deixou a sacada, sentou-se no sofá e ouviu a doce voz de sua amada do outro lado; sentiu um calor no coração, ajeitou-se para ouvir melhor e combinaram dele cozinhar um peixe para o jantar. A moça estava retornando depois de dormir duas noites na casa de sua mãe e deveriam, portanto, comemorar. O quase-psicólogo espreguiçou-se, desligou o telefone, e decidiu experimentar um tempero novo, trazido do Chile. Em poucos minutos, com agilidade, arrumou a bagunça dos papéis espalhados e dirigiu-se para a cozinha; estava feliz.

–         O deserto

Ele, enquanto preparava os ingredientes e aguardava a chegada de sua amada, sabia que não conversaria com ela sobre as impressões que surgiram no segundo tempo de sua solidão. Isso fora resolvido há décadas, o professor-de-inglês sempre soube da importância do espaço de solidão que rodeia todo e qualquer ser humano: que ele só pode ser habitado pelo si-mesmo, numa versão virtualmente-refletida, auto-dialogada. E tão importante quanto ser amado por alguém, era aceitar e conviver bem com o si-mesmo, virtualmente-refletido. Esse aprendizado, Martim, orgulhosamente, trazia bem antes de ter ingressado na Psicologia.

E foi numa de suas incontáveis viagens, dessa vez diante do deserto, que viu sua antiga convicção adquirir temperatura, forma e cor. Estava no Chile, em San Pedro de Atacama, querendo vasculhar o deserto quando, seguindo um grupo de turistas, deparou-se com o Vale da Lua. Ficou tão impressionado com o lugar que sabia que seu espaço interno de solidão-refletida seria exatamente daquele jeito. O viajante solitário deparou-se – extasiado – com sua solidão localizada externamente, e esta experiência acabou por modificá-lo para sempre.

As fotos que tirou do Vale da Lua, ele as ampliou, transformou em papel de parede e colocou-as em duas das paredes do seu quarto, as laterais; assim parecia que dormia e Nele acordava, todas as manhãs. Era mais que bonito aquilo, era uma espécie de passagem para outra dimensão e, aos olhos dos outros, nada mais seria que uma bela recordação de uma viagem inesquecível.

A modificação ocorrida dizia respeito – exatamente – aos olhos dos outros, ou seja, ele podia transformar, com certo esforço, o espaço auto-refletido numa vida a ser vivida, o que diminuía significativamente a importância do olhar alheio. Ali, envolto no si-mesmo, tendo apenas seus critérios para conduzir e avaliar as experiências, o amante-do-deserto podia viver da forma como escolhesse, sem as amarras forjadas pela expectativa alheia.

A constatação do que já sabia e, de certo modo exercitava, trouxe a Martim um grande consolo: era dono absoluto de si e de seus atos, sem receios ou culpas, sem meios termos, com a justificativa dos seus sentimentos. Ele conseguia o acompanhamento dos sentimentos em relação aos ideais a serem seguidos, pelo menos até agora tinha sido assim. A poderosa e revolucionária descoberta não foi compartilhada com as outras pessoas, primeiro porque não entenderiam e segundo porque se sentiriam ofendidas pela exclusão a que as condenava.

E era curioso, porque quanto menos a pessoa dela quisesse se aproximar, mais chance tinha de vislumbrar seus desígnios e, de forma misteriosamente-autônoma, era a “Solidão” mesma que se apresentava permitindo que o outro olhasse por cima de seus contornos. Em relação à Taís, a leveza da moça se transformava numa senha infalível para a aproximação da solidão-auto-refletida, e Martim, por sua vez, não se incomodava nem um pouco que a namorada, de vez em quando, se avizinhasse de sua descoberta.

Em relação aos acontecimentos daquela manhã na Clínica, também seria assim, ele falaria tudo o que sentira e pensara, porém, no que diz respeito às reflexões posteriores apenas mencionaria alguma coisa, como idéias possíveis, como interpretações cabíveis, mas – evidentemente – nada que pudesse parecer uma possibilidade de exercício e reprodução da experiência dos internos.

E o quase-jornalista – estupefato – estava decidido a experimentar o que André experimentara; mas de forma planejada, competente, cuidadosa. E ao cogitar tal condição, não sentia qualquer censura ou impedimento, o que sabia é que teria de ajustar seus afetos a experiências tão marcantes e não seria simples. “Não se tem o controle dos afetos, mesmo quando se consegue direcioná-los e submetê-los a intenções previamente estabelecidas”, pensou, mas este desafio dizia respeito a “outro momento” de sua recente decisão. “Antes de tudo, há um peixe para assar” e, com um leve movimento de ombros, concluiu: “nada é melhor do que uma boa comilança”.  

– O jantar

            Taís chegou e encontrou a mesa posta: um cheiro irresistível tomava conta do apartamento e ela pensou que estivesse no paraíso. Beijou Martim, contou algumas coisas e foi logo tomar banho e se arrumar para apreciar o “prato” que prometia conduzi-la a sensações indescritíveis. Isso era mais uma coisa que os unia: apreciar um bom prato, valorizar temperos, realizar experiências na cozinha, trocar receitas, freqüentar diversos restaurantes, experimentar iguarias, em resumo, comer bem.

         A namorada não quis falar dos internos durante a refeição, que ficasse para depois da sobremesa e o quase-jornalista não insistiu porque não fizera outra coisa senão pensar no assunto. Ele deveria era aproveitar a companhia da moça para esquecer, para dedicar-se a outros temas, para “desbaratinar”.

O jantar tinha um sabor de reencontro, era como se estivessem separados há meses, e cada detalhe contava justamente porque denunciava a “sofrida” ausência. Martim era perito em detalhes e Taís sabia valorizá-los, o que dava um brilho especial às coisas e o casal abusava desses quesitos quando estavam a sós; eles também tinham paciência consigo mesmos e exageravam no que lhes dava prazer. Era maravilhoso, portanto.

         Enfim, iniciaram o assunto sobre os acontecimentos da manhã chuvosa e as impressões dela foram semelhantes às do narrador-nato. A moça, porém, sentiu intenso medo, por isso, optou por não atendê-los, talvez não tivesse estômago para ouvir os detalhes daquelas terríveis histórias. Ele compreendia perfeitamente as colocações da namorada e avaliou o que aconteceria se soubesse que decidira fazer o mesmo que André. Taís se afastaria imediatamente e talvez o denunciasse; viveria imersa na dor até que a dor dela se cansasse e trocasse de endereço.

         E não tirava a razão da namorada, somente alguém que tivesse sido despertado como ele e resolvesse se testar é que compreenderia. A felicidade estava no que viviam, no que podiam compartilhar e algo que os separasse radicalmente, acabaria com a felicidade. Ele chegava a admirar a capacidade da namorada de manter-se na simplicidade das coisas, ou então a capacidade de radicalizar, mas naquilo que não separa ou não cria impedimentos. Havia gente assim e talvez Taís fosse uma dessas pessoas; caberia a ele então ir e vir da radicalização-definitiva, e se fizesse bem feito, talvez conseguisse manter intocado o canal da felicidade.

         A falta de ambição de Martim só era vencida por sua vontade de aprender, de provar o gosto das coisas e quando algo o despertava, dificilmente, voltava atrás. A sorte o acompanhava e ainda não precisara radicalizar a ponto de parecer irreversivelmente incompreensível; mas naquela enigmática e chuvosa manhã, a sorte mudara, ele teria de jogar com as duas possibilidades: seria tudo ou nada, e dependeria de sua competência radicalizar enquanto mantinha a felicidade inalterada.

         Eles transaram, a moça dormiu e o futuro-psicólogo voltou para a sacada. Apreciava a noite olhando as estrelas longínquas e pensando qual seria o ponto de partida para sua nova condição. Depois de um tempo, resolveu tomar vinho, buscou o Casal Garcia, seu preferido, tão apropriado para momentos especiais e bebeu lentamente, acompanhado do brilho das estrelas e da recente vontade de arrancar da vida suas forças solidificadas.

         Ele começaria entrando para uma academia: iria fazer ginástica e se dedicar a um curso de defesa pessoal. Martim era, no geral, um tanto preguiçoso, mas sem uma preparação física adequada seria um amador como André, e disso fugiria. O quase-jornalista também aprenderia a manejar armas, coisa mais complicada de aprender sem levantar suspeitas, mas daria um jeito. Para completar, ainda precisaria estudar sobre medicamentos e seus efeitos, e o curso de psicologia, com certeza, facilitaria essa parte.

         No entanto, havia uma facilidade que o animava a dar o pontapé inicial no dia seguinte: tinha uma reserva financeira e poderia manejá-la como preferisse. Há tempos planejava criar a segunda unidade de sua escola de inglês, tinha, portanto, dinheiro guardado; poderia utilizá-lo sem ter de alterar seu estilo de vida e mais: iria transferir para outra cidade o projeto de abrir a filial da escola. Com essa importante decisão poderia se ausentar de Campinas e executar seu plano com tranqüilidade.

         Ele rapidamente escolheu Ribeirão Preto como a sede de suas investidas: uma cidade de porte médio, um tanto distante de Campinas, repleta de estudantes, capaz de absorver suas intenções e atividades. O moço pensava com rapidez e eficiência, não se detinha em atalhos ou bobagens; fazia-se certeiro, específico, estabelecendo metas e critérios. A parte seguinte do planejamento foi escolher a vítima, pelo menos, definir suas principais características e Martim sentiu imenso prazer nessa etapa de suas conjecturas.

         Um homem, entre vinte e trinta anos, nem muito forte nem fraco. Estava decidido: preferia um homem porque desejava ver a resistência em ação, capaz de lutar para sobreviver, capaz de reagir atacando. Talvez um estudante, que estivesse morando sozinho na cidade, recém-chegado, com poucos amigos; não seria difícil encontrá-lo vagando pelos bares ou enfiado nas universidades, cheio de sonhos. Martim poderia se passar por um deles, tinha vinte e oito anos é verdade, mas aparentava menos, conseguiria facilmente enganar o mais astuto observador com seu estilo despretensioso, sofisticadamente-simples.

         O assassinato seria a facadas, tal como André fizera; mas os preciosos detalhes, deixaria para planejar depois que estivesse freqüentando as aulas que decidira fazer. E diante do ato consumado? O que faria com o corpo? Isso ele também decidiria posteriormente, naquele instante bastava apreciar as estrelas, tomar o vinho dos seus sonhos e imaginar o que seria da sua vida depois que se transformasse em alguém que mata.

         A madrugada avançava e o futuro-psicólogo perdera o sono; ele queria deitar, abraçar Taís e “apagar”, mas não conseguia mover-se. Aquele “dia” chuvoso precisava ser vencido até para que a continuidade pudesse acontecer, era preciso que houvesse um marco inicial, uma contagem estabelecida no tempo, um antes e um agora. Ele, com esforço, deixou a sacada, foi até o quarto, colocou o pijama, contemplou o rosto da namorada e, em seguida, olhou para si mesmo de dentro da solidão externa estampada nas paredes: viu que fizera uma escolha difícil, evitada pela maioria, não-aceita.

Não sentiu medo, nem culpa, nem ficou em conflito: a vida era sua, podia dispor dela como bem entendesse; eis a mais simples “verdade”, a sua “verdade”. Adormeceu enfim.

–         O dia seguinte

O quase-jornalista acordou antes de Taís, deu um beijo em suas costas nuas e se deteve num detalhe do Vale da Lua mais ao fundo e à esquerda; ali, existia uma saliência onde se imaginava encostado vendo todo o resto de si. Nada de diferente notara, apenas a confirmação de que a vida era sua e que deveria tomar cuidado, estaria se colocando em risco ao tentar tirar a vida de alguém.

A objetividade existente no Vale, apesar de tudo, às vezes, o decepcionava. É que Martim esperava um certo incentivo ou então uma franca oposição, e nada disso vinha, nada disso ocorria. A solidão auto-refletida de si não julgava e, portanto, não produzia qualquer tipo de apreciação moral ou ética, ou seja, o que era apresentado àquelas superfícies refletoras era devolvido de forma imparcial, com isenção. Como se dava aquilo? Ele não sabia nem queria descobrir, esse era justamente o preço da raridade do “contato” e estava decidido a mantê-lo.

O namorado-da-Taís percebeu que não se transformara em alguém especial somente porque resolvera matar pessoas, não houve a menor alteração em seu cotidiano nem facilidades se apresentariam. O que via de dentro do Vale da Lua, na manhã seguinte, era a continuidade de sua vida com o acréscimo de uma direção recentemente estabelecida, marcada apenas por um ponto inicial que apontava para uma direção solitária, visitada por uma minoria.

“Já que me resta eu mesmo, vou é tratar de levantar”, disse automaticamente. Reviu mentalmente os compromissos que teria pela frente, tomou banho e saiu; a namorada continuava dormindo, eles se encontrariam na faculdade, mais tarde, como sempre acontecia, há cerca de quatro anos e meio.  Ainda era muito cedo e por isso resolvera passar na escola para pegar uns papéis; de súbito, imaginou que sua escola seria um bom local para esfaquear uma pessoa: havia espaço, havia muitas salas, seu carro poderia ser conduzido até o pátio e quem suspeitaria de alguma coisa?

Decidiu, numa fração de segundo que sua primeira vítima seria abatida ali, sem mais delongas, demorando apenas o tempo necessário para se preparar para o “feito”. Martim sabia da existência de uma academia de ginástica há três quadras, na rua de trás da escola, foi até lá para conhecer e gostou do que viu; matriculou-se, comprou as roupas necessárias e marcou o início das atividades para daí a dois dias. Iria fazer um exame médico detalhado e depois trataria de pensar no curso de defesa pessoal; tinha iniciado sua nova fase, portanto, e estava contente. O professor-de-inglês não gostava de esperar, de “cozinhar o galo” como dizia; se era para acontecer, que fosse logo.

         Ao retornar à escola, fechou-se em sua sala e planejou os detalhes da execução; deixava ao acaso a escolha da vítima, o destino o ajudaria, por certo colocaria alguém em seu caminho, seria uma espécie de presente. Fez ligações, recebeu os primeiros funcionários e dirigiu-se à Clínica para os atendimentos daquele dia.

Ao entrar, antes mesmo que pudesse verificar se havia recados de pacientes, Vitória acenou; a amiga estava a postos, na sala de alunos, e queria conversar, já que não conseguira na noite anterior. “Estou em cólicas, vocês não atendem mesmo o telefone quando resolvem comemorar, não é? Coisa irritante isso, viu!”

“Desculpe, mas você entende; eu sei que entende, darling; não entende!?” E riu de um modo debochado, tentando ser “discreto”, mas atraindo a atenção alheia. Vitória “odiava” o romance dos dois porque considerava um “excesso” aquele “grude”. A moça tinha fama de não “esquentar namorado”: ela perdia a paciência – repentinamente – com os moçoilos colocando para correr os imaturos, os desavisados, os machistas, os insensíveis, os preconceituosos e os que não queriam discutir a relação, em suma: todos.

Aquilo já estava virando comentário nas rodinhas de fofoca da faculdade, mas o que fazer? Martim a defendia, e mais que isso, a compreendia, no entanto, nada podia fazer pela amiga quando a “hora fatídica” se avizinhava: aquele instante em a moça se indispunha e, com frases afiadas, reduzia qualquer mancebo à condição de “estrume”.

“Estou ansiosa para tricotar sobre ontem, o que achou?” Eles se afastaram dos demais e confidenciaram suas impressões. Vitória se sentia à vontade com o narrador-nato e se expunha com delicadeza e certa impulsividade. “Como o universo feminino é diferente do nosso”, pensava o plantonista enquanto fazia cara de concentrado, “elas têm uma necessidade exasperante de falar sobre as coisas, sobre todas as coisas”. E ficou a observar o empenho verbológico da estagiária-de-atender-meninos-transgresores.

O quase-jornalista não sabia se gostaria de namorar uma mulher tão direta, tão certeira, tão objetiva. Era a melhor das amigas, uma excelente aluna, psicoterapeuta promissora, mas que namorado agüentaria a irritante competência?

Ele, certa vez, manifestara com todas as letras a opinião que tinha a respeito da competência-que-afasta-homem; foi uma conversa séria, demoradamente-franca em que a moça chorou, agradeceu e prometeu que iria pensar. E até que se empenhava, fazia esforços, se controlava, mas, de repente, de forma sutil ou violenta, um comentário era lançado, depois vinha outro e mais outro, liquidando – a médio prazo – qualquer possibilidade de resgate do “atingido”.

E Vitória passava, então, um tempo “quase-deprimida”, achando que talvez não conseguisse casar e ter filhos como as outras mulheres; depois se recuperava e tocava o cotidiano com vitalidade até que se deparava com outro atraente moçoilo e a história se repetia.

Martim parou de avaliar a amiga e tratou de ouvir o que dizia sobre o atendimento do André. É claro que a moça inteligente-e-prática já definira estratégias terapêuticas, já se perguntara inúmeras vezes sobre como deveriam abordar esse ou aquele tema, e discorria com desenvoltura sobre “as correntes ideológicas” que se formaram, na Clínica, depois da visita dos internos.

“Como assim? O que está acontecendo? O que eu perdi?” Ele retrucou um tanto excitado. “É que tem um pessoal que não concorda que o atendimento aconteça aqui, pensam que deveria ser realizado no Internato porque deixaria de nos expor ao perigo. Na minha opinião, são uns medrosos isso sim, estão sendo comandados pelo medo.”

“E a outra corrente?” Ele perguntou. “A outra defende que pode ser na Clínica, que os riscos existem, mas não devemos deixar de enfrentar esse desafio. Eu me incluo nessa ala”, Vitória fez questão de acrescentar (como se ninguém soubesse). “E o que move essas pessoas, as da segunda ala?” Ele perguntou, já um tanto distante. “A coragem e a ousadia, meu querido; você e suas perguntas psico-jornalísticas”.

“Me diz uma coisa, você teria coragem de matar alguém?” Agora ele tocara no ponto; a estagiária fez um movimento rápido com a cabeça, o fluxo dos seus pensamentos estacou e ela começou a processar as inesperadas palavras de Martim. “Eu não sei, em legítima defesa, talvez.” “Só nesse caso?” “Acho que sim, por quê?” “Eu fiquei pensando nos reais motivos do André, você acredita neles?”

A aluna ainda não tinha pensado nisso, envolvera-se tanto com o contexto do atendimento na Clínica que não extrapolara para outras possibilidades. Eis o que admirava em Martim: uma impressionante versatilidade em esquadrinhar qualquer história, de considerar múltiplas perspectivas, de virar do avesso até a mais simples situação. “A que conclusões chegou sobre isso, me diga logo; eu sei que já percorreu um caminho longo e que tem algo a dizer.” Ele olhou a amiga com seriedade e arriscou: “eu considerei aquele menino um amador, fez tudo no susto, se arriscou e foi pego; é isso o que penso”. “E o que significa, Martim?” Ela aguardava; “que os motivos talvez tenham uma importância relativa, que o resultado é que importa. E acho que o André nem se deu conta disso.” “Talvez não tenha mesmo se dado conta, mas onde, exatamente, quer chegar, meu caro jornalista?”

O namorado-da-Taís pensou: “o que se deve colher de uma experiência é o resultado e fiquei muito interessado em retirar de alguém sua vibrante força de vida.” O silêncio se esticou e Vitória permaneceu imóvel. Martim fitou a amiga e, de dentro da solidão-refletida, a ela se contrapôs porque imaginava sua reação se falasse o que pensava. Vitória transformara-se, sem saber, na primeira pessoa que enfrentava para reivindicar seu direito de experimentar uma sensação proibida e solitária. Ele endureceu o olhar e com o olhar disse o que as palavras ocultaram; e veio a solidão, a que deveria acompanhá-lo dali por diante, e quis logo se apresentar para se acostumar e evitar sobressaltos.

E habitado pela solidão-da-minoria, no espaço do si-mesmo, sentiu que o tom verde-escuro dos olhos da amiga se ampliou recobrindo tudo que o envolvia. Fazia então um frio seco, de um silêncio agudo e o moço poderia jurar que estava num labirinto-geleira. O quase-psicólogo era obrigado a manter-se caminhando porque o frio-seco desfazia as formas como por encanto, quando se aproximava, e também era obrigado a tapar os ouvidos com receio do silêncio agudo porque parecia que o silêncio iria “aspirar” seus tímpanos.

Ah, da falta das formas, ele não se queixava, estava acostumado, era como viajar, ter sempre uma mochila nas costas e rumo incerto, deliciosamente-duvidoso. O problema estava no silêncio-que-aspira, que fazia com que ficasse zonzo e poderia derrubá-lo a qualquer instante, e como é que se cai quando não se tem formas de sustentação? Martim decidiu caminhar devagar, como se estivesse em câmera lenta (isso ele também conhecia) e para se concentrar fez uma “narração”. Foi como um milagre, de repente, o medo passou e tudo estava bem, como se nunca tivesse existido a menor complicação.

“Venci a primeira dificuldade”, pensou. “Eu não temo a solidão dos que matam, sei como vencê-la”. O futuro-assassino, numa fração de segundo retornou, fez cara de maroto, visualizou Vitória e respondeu com uma pilhéria. A moça riu, não esperava que fosse ouvir uma bobagem qualquer; desconcertada, deu um beijo em Martim e mudaram de assunto, trazendo outros temas para a pauta do dia. “E como foi a comemoração? O que comeram? Quem cozinhou dessa vez?” A moça era descontração-pura e o professor-de-inglês pensou que se conseguisse se comportar daquele jeito com seus pretendentes, teria em sua porta, uma fila de “moços casadoiros” implorando por uma única chance. Ele riu.

–         Uma paciente

Vinte minutos depois de ter vencido o medo da solidão que ronda os que matam, o namorado-da-Taís estava diante de Dona Marcelina, uma senhora de cincoenta e cinco anos, que procurara a Clínica para reclamar de sua vida conjugal: ela não sentia mais vontade de se relacionar sexualmente com o marido que a procurava – religiosamente – duas vezes por semana. Dona Marcelina se dizia deprimida e visitava Clínicas e ambulatórios para relatar suas mazelas e infortúnios; carregava sempre os receituários na bolsa e fazia uso de antidepressivos para atenuar uma tristeza que não sabia precisar de onde vinha.

Martim, de cara, simpatizou com ela e notou, no primeiro encontro, algo de estranho, melhor dizendo, de falso, e no bom sentido. Ele não sabia explicar, mas alguma coisa cheirava à armação e por isso comoveu-se o mínimo necessário com sua condição de “deprimida solicitada pelo marido”. O aprendiz foi conversando, perguntando, desviando do assunto “principal”, querendo saber de seus quatro filhos até que ela, justamente naquele dia, na terceira sessão do Plantão, confessou que não sentia tristeza alguma, que não existia a “tal da depressão”, que fazia aquilo para ter um motivo, podendo fugir das tentativas do marido de “exercer a função”.

Dona Marcelina riu despudoradamente e piscou para Martim, que atônito, também riu. Ela continuou dizendo que somente confessara porque sabia que o “moçinho-doutor” não lhe pediria para deixar de tomar o remédio ou conversar com o marido ou dele se separar. “Nenhuma dessas, doutor; eu vou é continuar com o meu remedinho e quando não conseguir escapar, deixo ele fazer, viu; fico meio dura, prendendo as pernas, ele sobe em cima de mim e faz; sabe, meu marido não demora e até sinto uma coisa boa, como antes.” Dona Marcelina riu mais alto e soltou o cabelo, costumeiramente, preso.  “É tão bom visitar essas Clínicas e poder falar dos meus filhos e da vida; sabe doutor, mulher na minha idade precisa mesmo é falar.”

E, satisfeita, contou suas histórias e repetiu algumas delas e se despediu dizendo que não retornaria ao Plantão, falara o suficiente por um bom tempo.  Martim, ao vê-la partir, sentiu uma vontade incontrolável de rir; acompanhou-a até a saída, recebeu seu abraço caloroso, voltou para a sala de atendimento e riu, riu de rachar, riu de doer. Não é que a confissão de Dona Marcelina fosse tão surpreendente, o surpreendente era a decisão de permanecer nela, era a capacidade de acomodação encontrada, era a vitalidade gerada numa situação de conflito-alimentado criando uma liberdade genuína, graciosa.

A saudável senhora resolvera tomar remédio para a depressão porque assim conseguia justificar para o marido sua inapetência sexual e se comprazia fazendo médicos e psicólogos perderem seu tempo em persuadi-la a “resolver a situação”. Era esse tipo de reviravolta que seduzia Martim; era o imprevisível bem colocado, trazendo uma liberdade travessa, tortuosamente-humana, possível. E, ao ouvir o próprio riso ecoar pelas paredes da sala de atendimento, parecia quase acreditar na possibilidade de manter sua felicidade intocada.

O que de fato se é não pertence ao contato com os outros, ele repetia mentalmente; o que alguém dispõe para o contato é outra coisa, diz respeito a parcelas diversas, que podem estar distantes do que realmente – de fundamental – constitui a pessoa. Ele começava a considerar seus planos futuros com mais cuidado, mais maturidade; sempre deveria pesar os prós e os contras, sempre deveria avaliar suas atitudes porque não queria ser traído pelo medo ou por um momento de fragilidade ou arrependimento.

Dona Marcelina com sua liberdade tortuosa, o convencera de que os parâmetros mais difíceis de serem ajustados estavam nele mesmo e que não deveria desconsiderar qualquer afeto, muito menos negligenciar seu alcance. Ainda rindo e um tanto mais sintonizado com seu novo propósito, dirigiu-se à escola; tinha coisas a resolver.

continua…

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